Novos paradigmas do capital humano

Trabalhar vários anos em consultoria, leva-nos a ganhar alguns hábitos que o coaching nos obriga a perder, não por incompetência, mas por necessidade de mudança de perspetiva.

Contratado por um cliente para resolver um determinado problema (ou vários), de maior ou menor complexidade, o consultor apresenta diferentes respostas ao mesmo problema, aconselhando sobre o melhor caminho e sugerindo um conjunto de ações que irão fazer com que o cliente encontre o melhor desfecho para o seu problema.

Com o passar do tempo, em especial na área da consultoria de capital humano, e para todos nós que temos oportunidade de conhecer por dentro diferentes tipos de organizações, o fator humano ganha (felizmente) cada vez maior relevo. Começamos a ser forçados a concluir que algumas das soluções apresentadas nos projetos de consultoria pura e simplesmente não vingam, com o passar do tempo.

Facilmente poderíamos constatar que muitos projetos de consultoria, eficazes em teoria, contêm pouco do que é a verdadeira cultura organizacional do nosso cliente, e ainda menos do seu ADN. Este facto condena muitos dos projetos ao fracasso, tratando-se apenas de uma questão de tempo.

O mundo do coaching assenta em dois importantes pilares: o cliente/ coachee tem a resposta e tem todos os recursos. A nossa perspetiva é forçada a mudar.

coaching, hoje tão divulgado, ainda com alguns olhares céticos e pontos de interrogação, pela difícil quantificação de resultados e benefícios, tem sido aplicado e postulado pelas maiores e mais reputadas organizações mundiais a nível laboral; sendo parte integrante da vida de equipas, executivos de topo e departamentos de recursos humanos de algumas instituições, com resultados comprovados na melhoria de produtividade, gestão de conflitos e crescimento do negócio.

Consultoria e coaching partilham o foco no principal interveniente do processo: o cliente. Contudo, tratando-o de modo diferente. Enquanto na consultoria o cliente pode ser mais ou menos participativo na resolução do problema, no coaching o cliente é a chave da resolução do problema, sendo obrigado a fazer uma ponderação sobre valores, crenças, metas e objetivos num determinado lapso temporal balizado, apoiado por um profissional habilitado a desenvolver o potencial humano.

Esta perspetiva põe o cliente no epicentro do problema, tornando-o não numa parte da solução, mas na própria solução; fazendo-o despoletar todos os recursos e todas as respostas, mas também obrigando-o a repensar as suas dúvidas e, principalmente, as suas certezas.

As várias sessões de coaching, onde são estabelecidos objetivos, metas e prazos e é dado feedback sobre a progressão dos trabalhos, obrigam o cliente/ coachee a procurar recursos para responder aos problemas, a criar novos hábitos e a abandonar velhos paradigmas, com o apoio do coach.

Relembremos que os maiores atletas, executivos, multinacionais, políticos e figuras de renome mundial tinham um coach.

O falhanço da consultoria em alguns casos poderia ser facilmente aferido ao analisarmos sistemas de avaliação de desempenho, políticas de retenção de quadros ou planos de comunicação interna de tipologias amplamente divulgadas e academicamente conceituados, que fracassaram numa determinada organização por falta de correspondência com o seu ADN.

Grandes projetos com ferramentas de negócio elaboradas em todas as áreas tornaram-se inaplicáveis em algumas organizações, ao fim de um tempo, por não se ter tido em conta a real meta do cliente, por total desajuste à em relação cultura organizacional da empresa.

coaching traz à consultoria um conjunto de ferramentas que permitem conhecer as principais motivações por detrás de um problema ou projeto, permitindo encontrar soluções que vão ao encontro dos valores da instituição, de forma a encontrar soluções de continuidade verdadeiramente ajustadas.

Disfuncionalidades contextuais e de comunicação interna tornam-se sistémicas no seio das empresas, e resultam em problemas que se traduzem em lideranças que controlam pessoas sem uma preocupação clara no desenvolvimento do capital humano; aliada a uma cada vez maior pressão para resultados sem se atender às causas de estrangulamento; à ausência de feedback para compreensão de erros evitáveis; e, por fim, ao desinteresse generalizado e à falta de motivação.

coaching traz à consultoria um conjunto de ferramentas que permitem conhecer as principais motivações por detrás de um problema ou projeto, permitindo encontrar soluções.

A grande lição que poderíamos tirar da diferenciação entre consultoria e coaching é que este dá maior voz ao cliente e permite um estudo profundo da sua realidade e a definição de conceitos basilares, para só depois percorrer os diferentes caminhos que levam à solução e/ ou à mudança, onde a consultoria pode ser uma mais-valia.

coach ajuda o cliente a repensar prioridades, a re-significar situações, mas, acima de tudo, a analisar, a perceber e a consciencializar-se de onde está e para aonde quer ir, traduzindo metas num sem número de objetivos materializáveis para alcançar o resultado final.

Muitas das nossas organizações deveriam repensar a resolução dos seus problemas na área do capital humano, não apenas através da contratação de trabalhos de consultoria, mas através da contratação de serviços de coaching que lhes permitissem ter uma visão aprofundada dos seus objetivos, das crenças negativas, do circuito de valores e do alinhamento da cultura organizacional.

A solução em muitas das nossas organizações empresariais passa mais por alguém que se sente, nos ouça e faça as perguntas certas, ajudando-nos a descobrir a solução, do que em contratar alguém que diante do nosso problema nos apresente uma solução, sem conhecer a verdadeira essência organizacional da instituição.

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